Você gosta de contos de terror? Então é hora de curtir a primeira parte de uma história assutadora de minha autoria. Imagine se o mundo fosse tomado por desaparecimentos inexsplicáveis em massa e você tivesse que conviver com o medo de ser o próximo.  Vamos acompanhar como nosso protagonista reage a esta situação.

Sobrevivente

Primeira parte: Desaparecimentos inexplicáveis

Aquele domingo tinha tudo para ser especial. Era o meu aniversário. Eu estava descansando em uma cadeira enquanto aguardava, de telefone na mão, ligações de parentes e amigos, mas todos pareciam ter se esquecido de mim. Eu teria me entristecido, porém uma notícia que estava sendo exibida por um telejornal mereceu a minha atenção.

– Essa é uma cidade pequena e esse é o único supermercado do bairro – a repórter informou aproximando-se de um estabelecimento de portas fechadas. – E nesta semana ocorreu um fato curioso: o casal que administrava a loja não apareceu para abri-la, eles e os filhos simplesmente desapareceram sem deixar nenhum recado. A casa onde moram está desabitada e nenhum vizinho soube dizer aonde eles foram.

A notícia não tinha um tom de seriedade. A repórter pensava, assim como eu, que os donos do supermercado decidiram tirar férias em um momento inesperado. Talvez estivessem muito cansados do trabalho enfadonho.

Esqueci-me do telejornal quando o telefone tocou. Recebi os parabéns de uma tia muito querida. Logo depois meu pai trouxe-me um presente; a bicicleta que eu sempre quis.

À noite houve uma festa em que todos os meus amigos se reuniram. Mas eu não pretendo narrar a minha festa de aniversário, porque com certeza esse não é o seu interesse nessa história, por isso vamos nos transportar para a manhã seguinte.

Quando cheguei à escola senti a falta de Pedro, o meu melhor amigo. Ele raramente faltava e não me dissera nada na festa. Fiquei preocupado e assim que a aula terminou fui à casa dele. Não encontrei ninguém e os vizinhos não souberam dizer-me quando haviam saído.

Apesar de achar tudo muito estranho, procurei acreditar que a família do meu amigo simplesmente decidira viajar, do mesmo modo como fizera a família dona do supermercado.

Depois que se passou um mês, sem notícias do meu amigo, eu mudei de ideia, agora pensava que Pedro havia se mudado. Mas sem falar comigo? Seria possível?

Bem no fundo eu sabia que algo tinha acontecido, mas era difícil definir o quê. E a certeza de que alguma coisa realmente estava errada veio quando um ator famoso desapareceu. Novamente ninguém sabia dizer o que tinha acontecido. Ele simplesmente não apareceu na emissora para gravar o último capítulo de uma novela. Procuraram-no em seu apartamento, mas ele não estava, e o porteiro disse que viu quando ele entrou, mas não se lembrava de tê-lo visto sair. Os amigos também não sabiam de nada, e a família (essa era parte mais intrigante) também desapareceu. Não encontraram ninguém, nem o pai, nem a mãe, nem mesmo o tio ou o primo.

Sobrevivente: desaparecimentos inexplicáveis

Sobrevivente: desaparecimentos inexplicáveis

Nas duas semanas seguintes oito pessoas relativamente famosas também sumiram.

Fui tomado por um medo imenso. As pessoas estavam desaparecendo, e se eu fosse o próximo? Ou pior; e se a minha família desaparecesse e eu ficasse sozinho? Aquilo me impressionava de uma forma que eu não podia descrever.

Eu não conseguiria dormir imaginando que poderia ser a próxima vítima de um perigo desconhecido, por isso decidi investigar. Saí de casa furtivamente na calada da noite e tomei o rumo da casa dos donos do supermercado. Queria ir á casa do meu amigo, mas tive medo de descobrir que algo terrível lhe acontecera.

Cheguei a uma rua de construções luxuosas e, quando me aproximei de uma casa com todas as luzes apagadas, tive a certeza que era o lugar certo. Olhei para o portão aberto e para o tapete de grama que levava até a porta, tive medo de entrar.

– Um curioso! – uma voz ás minhas costas falou. Talvez tenha sido o maior susto que levei em minha vida.

Virei-me com o coração aos saltos. Um velho de expressão simpática me observava.

– Quem é o senhor? – perguntei em um sussurro de puro pavor.

– Eu recebi a missão de vigiar a casa para a polícia! E você? O que faz aqui?

– Desculpe! Eu só queria saber o que realmente aconteceu com as pessoas que moravam aqui, acho que ocorreu o mesmo com a família do meu amigo.

– Você pode até entrar, mas provavelmente não vai descobrir muitas coisas.

O velho fez um sinal para que eu o seguisse. Juntos entramos na casa. Senti uma estranha corrente de ar fétido que desapareceu quando o velho acendeu as luzes. Estávamos em uma sala onde havia um sofá azul, uma mesa de vidro sobre um tapete vermelho e uma televisão. Ao fundo ficava uma escada que levava ao segundo andar.

– Muitas coisas estão exatamente iguais ao dia em que a família desapareceu – o velho explicou.

Caminhei até o sofá e encontrei a fonte do mau cheiro: sobre a almofada havia um sanduíche pela metade que passara do prazo de validade há alguns dias.

-– O que é isso? – perguntei.

– Quando a família não apareceu para abrir o supermercado, a polícia veio até aqui. Eles encontraram esse sanduíche exatamente aí, a televisão estava ligada e o registro do chuveiro estava aberto.

– Mas por que os policiais vieram até aqui? Não pensaram que eles tinham apenas viajado?

– Não. Poucos desaparecimentos inexplicáveis foram divulgados pela mídia, mas há registros de centenas!

– Centenas? – eu senti um calafrio, enquanto tapava o nariz e tentava entender porquê ninguém havia tirado aquele sanduíche dali.

– Sim. Até agora a polícia não encontrou pistas. É assustador, não acha?

– Por que é assustador? – eu perguntei tentando mostrar que não tinha medo.

– Imagine: na noite em que tudo aconteceu o dono da casa assistia a um filme e comia um sanduíche, sua esposa tomava banho e, de repente… – o velho arregalou os olhos e ficou pálido como se estivesse imaginando a cena.

– E de repente? – eu o encorajei.

– Eu não sei, é um belíssimo mistério.

– Não tem nada de belo nisso. Eu adoraria saber o que aconteceu com o meu amigo.

– Quer ver algo ainda mais estranho? – o velho falou em um tom assustador.

– Sim – eu concordei, queria saber todos os detalhes daquele mistério.

Ele subiu pela escada. Eu o segui. Paramos à porta de um quarto.

– Você sabia que o casal tinha filhos? – o velho perguntou abrindo a porta e revelando um cômodo um tanto bagunçado.

– Sim. Dois garotos, eu acho.

Havia sobre a cama um caderno com uma caneta ao lado, foi para lá que o velho apontou.

– Veja o que está escrito.

Eu olhei atento para a matéria de português do sexto ano.

– O que tem de estranho nisso? – perguntei.

– Ora, rapaz! – Ele estava surpreso. – Parece que você não é um bom observador. Repare na última palavra.

Observei o caderno minuciosamente.

– Parece que o garoto estava tentando escrever “preposições”.

– Você está melhorando.  Reparou que a palavra está pela metade, e se observar melhor verá que o garoto parou de escrever exatamente na metade da letra “S”. Agora pense: o que o interrompeu tão abruptamente a ponto de ele deixar uma letra pela metade?

Eu não sabia responder, engoli em seco enquanto o velho se deliciava com o mistério. Ele olhou ao redor, suspirou e caminhou até a porta.

– Temos que ir rapaz, ninguém pode saber que eu o trouxe aqui.  Não sei o que está acontecendo, mas acho que estamos perto do fim do mundo.

– Bobagem! – eu disse.

Eu devia imaginar, mas aquele passeio não saiu de graça. O velho pediu um pagamento, como se estivesse ali como um administrador de um museu macabro sobre desaparecimentos inexplicáveis. Eu o paguei e fui embora com muitas coisas para pensar.

Ninguém estava falando sobre o fim do mundo, a última previsão mencionava o ano de 2012, mas aquele ano tinha passado e nada acontecera. Seria possível que o fim viesse de repente em um momento que ninguém esperava?

Completamente apavorado e, sem nenhuma resposta, eu fui embora.

Na semana seguinte eu procurei novamente o velho que vigiava a casa. Queria saber se ele tinha alguma novidade sobre os desaparecimentos, mas descobri que ele e sua família também tinham desaparecido na mesma noite em que conversamos.

Em casa e na escola eu não partilhei com ninguém o medo que me consumia, e todos os dias surgiam novas evidências de pessoas desaparecidas, mas a polícia sempre conseguia convencer a maioria de que tudo estava bem. Mas não estava. Nos meses seguintes, andando pela rua, eu sempre notava a ausência de pessoas que faziam parte do meu cotidiano.

– O que acha que está acontecendo com o mundo? – perguntei a Fabiana, a menina que se sentava ao meu lado na escola. Naquele momento não tínhamos o que fazer já que a nossa professora de português havia desaparecido, juntamente com metade dos alunos.

– Como assim? – ela perguntou com displicência.

– As pessoas estão sumindo!

– Bobagem, nossos colegas foram apenas transferidos! – ela enganava-se.

Ninguém queria falar abertamente sobre os desaparecimentos, e todos tentavam seguir suas vidas normalmente.

No fim da tarde cheguei à minha casa. Na cozinha encontrei minha mãe sentada em uma cadeira.

– Quero conversar com você, Arthur. – Ela estava muito calma e feliz.

Eu me sentei ao lado dela.

– Aconteceu alguma coisa, mãe?

– Aconteceu.  Eu vou ter de sair daqui a pouco, seu pai também irá e você ficará sozinho por algum tempo.

– Mas aonde vocês vão? – Eu me desesperei.

– Fique calmo, querido.  Amanhã você passará por um grande desafio, se superá-lo nos veremos novamente.

– Mas do que é que a senhora está falando?

– Apenas confie em mim, querido.

Minha mãe ofereceu-me um comprimido.

– O que é isso?

– Vai ajudá-lo a dormir, precisará de muita energia amanhã.

– Mãe, o que está acontecendo? Eu estou com medo.

– Por favor, engula o comprimido.

Com a ajuda de um copo d’água fiz o que foi pedido. Meu coração batia descompassadamente, foi a conversa mais estranha que tive em toda a minha vida. Segurei a mão de minha mãe para buscar um pouco de segurança, ela sorriu e um segundo depois a cadeira onde estava sentada ficou vazia. Minha mãe desaparecera diante dos meus olhos, sem o menor aviso, sem nenhuma luz ou barulho.

Eu fiquei tão assustado que nem conseguia me mover, permaneci estático olhando para a cadeira vazia. Agora eu sabia como as pessoas estavam desaparecendo, mas as causas ainda eram desconhecidas.

O que mais me impressionava era o fato de que minha mãe sabia que iria desaparecer. Seria algo divino? Eu estaria realmente vivendo o ano do fim do mundo?

Tudo isso era muito apavorante e eu teria enlouquecido, mas o remédio fizera efeito. Fiquei sonolento e adormeci debruçado sobre a mesa.

Curioso para saber o que vai acontecer a seguir? Então, não deixe de acompanhar a segunda parte da história aqui no Terror em Pauta.

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