Está pronto para ler uma história bizarra, mas ao mesmo tempo inspiradora e até mesmo divertida? Então, acompanhe o conto a seguir e me diga o que achou.

A história bizarra do Adormecer da Humanidade

A mesa no fundo do bar ficava perto da janela e ligeiramente afastada das outras. Era um lugar aconchegante para beber sem ser incomodado, ou ter uma conversa particular. Eu não vi quando o meu convidado entrou, e quase não o reconheci quando ele parou diante de mim. Era um homem sorridente que transmitia confiança e uma felicidade sincera. Ele fora meu aluno. Era mais uma mente brilhante que se perdera na loucura do mundo.

– Artur, você está ótimo. Suponho que tenha superado as angústias do passado.

Ele apertou minha mão e sentou-se.

– Professor, desde que me casei com Késsia posso dizer que tenho uma vida perfeita.

Késsia foi uma paixão juvenil não correspondida que fez meu brilhante aluno mergulhar em um deplorável estado de solidão e baixa autoestima.

– Até onde eu sei, Késsia Silva se casou com Leandro Souza há dois anos, e eles têm um filho.

– Isso é verdade aqui e agora, mas pode não ser em outro lugar ou no futuro.

– O que quer dizer?

– Tudo o que sei é que há mais de uma realidade, por isso, não duvide quando eu digo que Késsia é minha esposa.

– Artur, será que você pode ser um pouco mais claro?

– Nosso casamento aconteceu bem aqui. – Com o dedo indicador ele tocou a cabeça.

– Você imaginou se casar com ela? – eu perguntei temendo a resposta.

– Não, eu sonhei.

– Sonhar e imaginar não seriam, digamos, a mesma coisa?

– Claro que não. O sonho é a realização do que foi imaginado. É como tirar um projeto do papel, entende?

– Não entendo. Você quer dizer que sonhou com a Késsia e, por isso, está feliz? Pensei que já tivesse esquecido essa garota.

– É quase isso, mas acho que o verbo sonhar não expressa exatamente o que aconteceu. Tudo foi real.

– Você acha que teve uma premonição? Késsia irá se separar do marido e se casar com você?

– Essa é uma possibilidade. Mas não aconteceu exatamente dessa forma. Não foi como ver o futuro, foi como viajar até lá e viver o futuro.

Eu o olhei longamente, esperando que ele explodisse em uma gargalhada mostrando que tudo era brincadeira, porém, Artur continuou a divagar:

– Estamos pretendendo fazer uma viagem, você tem alguma sugestão?

– Você e Késsia? Quando?

– Assim que eu adormecer.

– Mas como pode saber que irá fazer a sua viagem no tempo?

– Não diga viagem no tempo com este tom zombeteiro. E sim, eu sei onde irei estar quando fechar os olhos. Você já ouviu falar em sonhos lúcidos? Descobri uma maneira bem eficaz de provocá-los.

– Você provoca sonhos lúcidos para viver ao lado de uma mulher que não te quis? Não faça isso com você rapaz, é doentio.

– Eu estive doente, mas agora estou ótimo. No início também tive dificuldades para aceitar essas viagens ao futuro, mas, descobri o quanto é maravilhoso.

– Veja bem, isso não pode ser o futuro, somos nós que escolhemos o roteiro dos sonhos lúcidos.

– Sim, mas quem sabe essa seja a forma de escrever o futuro, talvez os anos que estão por vir sejam um livro em branco que não precisamos esperar para preencher.

– Ninguém escreve o futuro dormindo.

– Quem sabe então, seja um universo paralelo em que podemos criar nossa própria história?

Ele falava com inacreditável seriedade e convicção. O que Késsia pensaria se soubesse que os sentimentos que Artur nutria por ela o levaram à loucura? Eu quis acreditar uma última vez que ele zombava de mim, por isso, falei:

– O que as garotas dizem quando você as convida para sair e começa a falar sobre viagens ao futuro e universos paralelos?

– Eu não convido nenhuma garota para sair, sou um homem casado.

Eu me irritei.

– Pelo amor de Deus, pare com isso. Você está louco, precisa de um psiquiatra.

– Viver em outra realidade não me torna louco.

– Mas não existe outra realidade, olhe ao seu redor, essa é a única realidade que existe.

Artur olhou para os quatro cantos do bar de forma debochada.

– E o que torna isso real?

Eu dei alguns socos suaves na mesa.

– Olhe como é sólido, você pode tocar, sentir a textura, o cheiro. Se você vier correndo e tropeçar, pode muito bem rachar a cabeça na quina desta mesa. Mas isso não é possível nos sonhos, ou é?

– Tirando a parte de rachar a cabeça, tudo é possível. O cérebro reage ao mundo em que vivemos fazendo com que sintamos raiva, amor, ansiedade, medo. Se você se concentrar nas imagens certas enquanto está dormindo, o cérebro reagirá da mesma forma, é ele que torna tudo real.

– Como você pode chamar de realidade as imagens escuras e borradas de um sonho?

– Por acaso é a luz que torna tudo real? Então o que me diz de um cego? Este mundo não é real para ele?

Não encontrei um bom argumento para rebater aquela nova face da loucura.

– Não é a visão…

– Exatamente, são as emoções. O prazer que sinto ao beijar Késsia dormindo não seria maior se fizesse isso acordado.

– Como você sabe se nunca a beijou de verdade?

– Realmente eu nunca a beijei nesta realidade, mas agora sei que isso seria decepcionante. Por acaso já lhe ocorreu de você imaginar algo que está para acontecer e, quando realmente acontece, você percebe que em seus pensamentos era bem melhor? E olhe que estou falando apenas de um pensamento, se você tivesse sonhado a decepção seria ainda maior. Tudo o que este mundo tem para nos oferecer é apenas um esboço do que realmente queremos.

– Então, insinua que se pudesse se casar com Késsia aqui, agora, você ainda escolheria essa outra Késsia do futuro ou de outro universo?

– É claro.

– Você zomba da criação. Já pensou que tudo o que existe faz parte da imaginação de Deus? Mesmo assim você prefere se fechar em sua própria cabeça?

– Se você acha que vivemos na imaginação de Deus, então deve pensar que tudo aqui não é real.

– Eu não quis dizer isso. Deus imaginou e depois tornou real.

– E nós podemos fazer o mesmo em nossos sonhos.

– Não podemos. – Eu estava quase gritando. – Quando temos um sonho bom e acordamos de repente nos sentimos decepcionados por não ser real.

– Engano seu. Sentimo-nos tristes e decepcionados por acordar, então, o que fazemos? Tentamos dormir outra vez para continuar sonhando. As pessoas querem continuar dormindo porque sabem que será melhor do que isso que você chama de realidade. Acredite meu amigo, dormindo você conseguirá se realizar e ser mais feliz do que seria aqui.

– Isso me parece apenas uma maneira de fugir da realidade, dos problemas, da vida. Pessoas fracas fariam isso.

História Bizarra

História Bizarra

Pensei que o insulto o faria refletir um pouco mais, mas Artur apenas sorriu sem se importar.

– Por que pensa que a vida deve ser difícil, cheia de dor e sofrimento? Acha que as pessoas querem isso? Por que viver assim se a felicidade nos espera em um mundo que se abre em nossa mente?

– A longo prazo essa vida perfeita deve ficar bem chata. Precisamos enfrentar privações.

– Quem poderia se aborrecer em um mundo controlado por sua própria vontade. Se você quiser dificuldades, pode inserir algumas de vez em quando.

Ele tinha respostas para tudo. Era admirável seu empenho em defender sua realidade alternativa.

– Mas você não pode negar que irá se sentir sozinho com o tempo. Afinal, você é o único habitante da sua realidade. Todas as pessoas inseridas nesse futuro são apenas sombras suas. Sua amada Késsia, por exemplo, uma de suas características mais marcantes é sua personalidade forte. Mas, em um mundo onde você é Deus, ela não tem personalidade; a pobre moça diz o que você quer, faz o que você quer e sorri quando você deseja. Aposto que ela não consegue escolher nem as próprias roupas, ou talvez você prefira vê-la caminhando nua. O fato é que ela não é uma mulher, não é sua esposa, é apenas uma marionete.

Sua demora em retrucar me fez pensar que eu o havia acertado, mas ele estava apenas tomando fôlego para continuar com sua história bizarra.

– Isso não é verdade. Quantas vezes em nossos sonhos nos deparamos com pessoas que nunca vimos, e as ouvimos dizer coisas que nunca passaram por nossa cabeça? Os sonhos lúcidos funcionam da mesma forma, podemos controlá-los, mas nunca totalmente. Talvez haja uma conexão entre todos os seres humanos. Você, meu velho amigo, pode aparecer nos meus sonhos sem ser convidado.

– Se houvesse uma conexão, acho que Késsia se lembraria de estar com você já que sonha com ela tão insistentemente.

– E, talvez, ela se lembre. Não falo de uma lembrança clara como se tivéssemos marcado um encontro em um sonho, mas creio que uma parte inconsciente dela viaja comigo para o nosso futuro. Então, mesmo sem vê-la há meses, tenho certeza de que se nos encontrássemos ela teria a sensação de que me viu ontem, mais tarde pensaria que encontrou apenas alguém parecido. Portanto, a Késsia que encontro todas as noites não é uma invenção.

Minha cabeça doía e, não importava o que acontecesse, eu não pretendia sonhar naquela noite. Tentei mudar de assunto.

– Já estamos aqui há algum tempo e não pedimos nada. Você quer uma cerveja? – Eu fiz um sinal para o garçom. Artur não me deu atenção e continuou falando.

– O único problema dos sonhos lúcidos é que não conseguimos mantê-los por muito tempo, mas felizmente eu e um amigo estudioso dos sonhos conseguimos resolver este problema. – Ele colocou sobre a mesa um pequeno frasco contendo um líquido cinzento e espesso.

– Essa é a droga que tem usado para conseguir falar todos esses absurdos?

– Chamo este líquido de Felicidade. Quando o bebo, consigo manter os sonhos lúcidos por horas. Quer um frasco? O primeiro é grátis.

– Vocês vendem esta coisa?

– É claro. O número de interessados cresce a cada dia. Por que iriamos privar as pessoas do prazer da verdadeira felicidade?

– Os efeitos colaterais desta porcaria foram considerados?

– Eu o tomo há quatro meses e nunca tive nenhum efeito colateral. Experimente.

– Eu não quero essa droga, gosto do meu mundo real e não quero insistir nessa história bizarra.

– Gosta mesmo? Professor, o senhor está velho, já se aposentou, é viúvo e seus filhos cresceram. Já pensou que poderia criar novos dias gloriosos em seu mundo paralelo? E, se continuar com estes pensamentos, logo ficará sozinho. A humanidade está adormecendo, professor. As pessoas estão desistindo dessa “realidade” triste e frustrante. Talvez queiram acordar se esse futuro que criam em suas mentes finalmente chegar, mas, volto a repetir que, ele não será tão bonito quanto parece, então para que acordar? Apenas para satisfazer as necessidades do corpo, é claro. A mente é livre, mas o corpo está preso nesta realidade cinza, então, precisaremos alimentá-lo e hidratá-lo para depois, voltar a dormir.

Talvez não fosse tão ruim experimentar. Peguei o frasco e o guardei no bolso. A cerveja chegou. Bebemos em silêncio.

– Preciso ir embora, professor. Bons sonhos.

– Igualmente.

Antes de sair, peguei outra cerveja e a bebi pelo caminho. Na escuridão da noite confundi as ruas mal iluminadas que me levariam para casa. Acabei chegando a uma rua vazia, razoavelmente distante do meu destino. Ali parei para pensar. Toda aquela conversa sobre sonhos estava me enlouquecendo, as ideias de Artur ameaçavam dominar minha mente.

Encarei com desejo a possibilidade de dormir e rever minha esposa, abraçar meus filhos ainda pequenos e reviver o vigor da juventude. E, se eu quisesse, podia fingir que tudo era muito mais do que mera imaginação; era uma realidade alternativa, bela e tentadora.

Sentei-me sob uma árvore e tomei em um só gole o líquido cinzento com o qual eu fora presenteado. O gosto era horrível, intoxicante, mas não tive muito tempo para reclamar. O sono veio, subitamente, antes que a consciência fosse apagada. Eu estava sonhado e tinha o controle.

A vida perfeita, idealizada e uma vez realizada, retornou em um novo mundo para que eu pudesse sentir o gosto uma segunda vez. Meu corpo não era mais velho e cansado e eu podia mover-me com incrível agilidade, sem dores, sem tonturas. Meus filhos corriam em polvorosa por minha antiga casa e, minha mulher, em desespero, tentava acalmá-los. Perto da entrada principal eu observava tudo com um sentimento de deliciosa nostalgia. Era um dia bonito e podíamos sair para dar uma volta.

– Cheguei mais cedo – eu disse e todos vieram me abraçar.

Artur tinha razão: são as emoções que tornam tudo real, e a alegria que me consumia não podia ser mais viva e vibrante. Eu seria feliz, pelo menos até o próximo despertar.

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