— Você tá um caco!

Miranda estava com sua cara de preocupada, mas isso não a impediu de dormir uma boa tarde de sono, pelo visto.

— Ser uma bruxa nesta cidade de merda vai ser o meu fim! — Fui até a cozinha do nosso apartamento e servi uma dose de conhaque.

— São 2 horas! — ela disse olhando o relógio em seu pulso. Depois se jogou no sofá e abriu a boca num longo bocejo. — O que ele queria? onde você estava até agora?

— Estou viva, já é mais do que mereço. — Sentei ao lado dela. Percebi que nossa horta vertical havia sido regada e as ervas estavam lindas. Por algum motivo, isso me acalmou. — Ele queria uma magia de revelação.

— Você não fez, né? — Miranda segurou meu rosto com as mãos, aflita.

— É melhor você não saber de muita coisa.

— Garota, tu tá com o cheio dele. É um cheiro esquisito, doce.

— AFF, nem me fala! Esse cheiro de balinha de criança tá me deixando maluca. E me diz, o que isso tem haver com aquela personalidade de bosta que ele tem?

— Parece algum tipo de ironia celestial! — A bela ruiva deu uma risadinha e se levantou para ir colocar uma bebida para si.

— Ele curou uma ferida imensa no meu braço. Isso é muito ruim? — Eu esperava que ela soubesse mais sobre magia antiga do que eu. Morpheus era uma criatura que eu não entendia, e sobre a qual sabia muito pouco.

— Curou como? Com as próprias mãos? — o rosto de Miranda ficou branco e ela quase deixou a bebida entornar .

— Sim! A mão dele emitiu uma luz brilhante do tipo que nunca vi antes. Ardeu pra caramba, mas agora tô nova em folha. Depois eu fiquei dormindo no sofá do Alegoria. Acordei agora a pouco e vim embora.

— Chloe, tu tá fudida! — ela veio em minha direção e segurou uma das minhas mãos. Comecei a ficar tensa e meu estômago vazio roncou. — Agora ele pode te sentir. Você tem parte da essência dele. Aquilo que saiu da mão dele é magia de criação e ela pode destruir ou construir, tipo a “reforma” que ele fez no seu braço. Mas agora ele terá algum tipo de influência sobre você.

Demorei um pouco para internalizar aquilo. Ainda era vago, mas já era alguma coisa. Por outro lado, eu provavelmente tinha um GPS instalado no corpo pelo próprio rei dos sonhos.

— Espero que essa trip tenha valido a pena! — Assim que minha sócia e colega de apartamento falou aquilo, minha ficha caiu. Eu não tinha cobrado o valor do prejuízo que ele deu.

Morpheus

Eu estava me sentindo mal. Ainda não tinha informações sobre o paradeiro de John e tinha colocado a vida de uma bruxa inocente em risco.

Chloe era uma boa garota, capaz de seguir as regras, discreta e que estava se esforçando muito para construir um negócio, para pagar a hipoteca do seu apartamento e começar a ter uma vida digna.

No início, quando fui atrás dela, eu não sabia de nada disso. Apesar de ser o rei dos sonhos, eu não costumo ficar bisbilhotando o subconsciente de todos os que entram em meu reino. Contudo, quando ela me tocou, pude sentir e visualizar tudo o que era importante para ela e o quanto ela queria fazer aquele bar dar certo.

Chloe não era humana; obviamente, ela era muito poderosa, poderosa o suficiente para me levar para o entremeio sem precisar usar runas, e isso eu nunca tinha visto antes. Para um ser imortal, que existe desde quando o primeiro ser vivo sonhou pela primeira vez, ter surpresas não era uma coisa que eu considerava possível.

— Então, Sonho, o que você achou? — Morte parecia inquieta.

— Achei um sigilo demoníaco feito por algum necromante muito poderoso. Eram runas antigas, e havia também sangue; uma parte dele era humano, e a outra não consegui reconhecer a fonte.

— Você sabe que agora pode ter colocado o cloro em risco, né?

— Eu sei, mas ela já deixou claro que não quer me ver de novo. Desde que eu permaneça longe durante a caçada, ela vai ficar bem.

— O tipo de poder que ela tem é muito interessante; em algum momento, vão chegar até ela, por isso é melhor ficar de olho. — Morte pontuou.

— Sim, talvez ela seja útil para mim no futuro. O meu palpite é que John esteja em outra dimensão, talvez no inferno, talvez no entremeio ou em algum outro lugar ainda mais perturbador, mas eu ainda não sei dizer.

— O cheiro dela é delicioso; está por toda a sua roupa. — Morte se aproximou e tocou meu peito.

— É um cheiro frutado, me lembra vinho rosé e castanhas.

— É, você tem razão, e ainda tem uma nota difícil de identificar, mas cada humano tem a sua, né? — Ela refletiu, sentando-se no meu trono. — Parece que você e ela ficaram bem próximos.

— Ela sofreu um ferimento, precisei curá-la. — Não gostei daquele risinho que minha irmã mais velha formou em seus lábios.

— Nossa, Sonho, isso pode ser uma coisa bem ruim.

— Por que, o que você quer dizer?

— Bom, pelo que eu sei, essa energia que compõe o que a gente é, que faz com que a gente seja imortal e poderoso, é algo que não pode ser compartilhado sem que isso leve uma parte de nós junto.

— A magia tem seu preço! — Concordei, resignado. — Pedi a ela algo difícil de ser feito, e ela me deu o que queria, então eu estava em dívida, na verdade ainda estou.

— Senhor, não pude deixar de ouvir a conversa. – Lucienne chegou com um livro na mão no salão do trono. — O senhor acha que essa bruxa é tão poderosa quanto Raven?

Raven havia sido um caso complexo no passado; sua magia era muito poderosa e ancestral, e ela vinha de uma linhagem de bruxas que cometeram péssimas escolhas. Pelo que eu tinha visto até aquele momento, Chloe não parecia ser uma dessas criaturas sedentas por poder, mas eu não a conhecia o suficiente para afirmar.

— Chloe, com certeza, é um caso interessante, mas espero não precisar dela tão cedo. Espero deixar a sua curta vida em paz.

Chloe

De volta ao bar naquela noite, Miranda e eu percebemos que o prejuízo seria maior do que pensamos. Já eram 1 hora da manhã, e até aquele momento, nenhum outro feiticeiro havia entrado no local; as mesas estavam vazias, a música cantarolava para as paredes, e os drinks desvaneciam em seus copos, esquentando e derretendo o gelo.

Eu estava tão brava que podia voar no pescoço de alguém, principalmente pelo olhar da minha sócia, que além de pena, tinha uma sensação de angústia como se nós duas estivéssemos prestes a ir à falência, o que não era mentira.

— Porra, Chloe, se não aparecer ninguém essa noite, a gente não consegue o suficiente para pagar a hipoteca desse mês. Você devia ter aceitado o dinheiro daquele perpétuo!

— Vai parecer estranho que eu vou falar agora, mas eu nem sei de onde Morpheus tiraria esse dinheiro. Quer dizer, ele ia assaltar um banco? Estalar os dedos? Sei lá, de onde sairia esse dinheiro.

— Bom, ele é uma criatura poderosa, então, com certeza, ia arrumar de algum lugar. Isso a gente não tem que saber de onde é, mas a gente precisa desse dinheiro.

— Olha, eu não vou atrás dele! Estamos ferradas mesmo; é melhor não mexer com esse tipo. Isso só traz problemas, e eu quero distância. Quero esquecer que um dia eu conheci esse cara.

Atravessei o balcão e peguei o meu celular, que estava carregando. Decidi fazer algumas ligações e ver se eu poderia convencer alguns dos clientes mais assíduos a voltar.

Talvez, se eu desse a minha palavra de que nenhum perpétuo ia aparecer naquela noite, eles se dispusessem a beber e gastar um pouco do seu dinheiro no estabelecimento. Demorou um bom tempo, mas eu consegui.

Pouco a pouco, fui ligando para uns e para outros, e por volta das 2:30 da manhã, pelo menos 10 mesas estavam cheias. Fiquei muito feliz, porque isso mostrava que eu tinha alguma autoridade junto a eles. Afinal de contas, que bruxa iria ficar mancomunada com um perpétuo e acabar com a sua própria honra? Só se eu fosse idiota!

Parti logo para criar as poções do amor, poções da alegria, poções de ecstasy e vários outros tipos de sentimentos que os feiticeiros queriam experimentar naquela noite.

Muitos dos feiticeiros que iam até o meu bar não tinham a magia desenvolvida o suficiente para conseguir formular poções. A verdade é que feiticeiros poderosos estavam cada vez mais em falta, e quanto mais o mundo moderno avançava, mais as leis da magia, a forma de canalizar o caos e construir a partir dessa energia, se perdiam.

Aquilo era muito triste, e enquanto eu servia uma poção do amor para um senhor de certa idade, imaginava quanto tempo aquele bruxo viveu sem nunca poder se desenvolver e sem nunca poder sentir em suas mãos e seu corpo aquela energia vital que fluía sobre nós, criaturas poderosas e tão longevas.

Os bruxos e bruxas viviam mais do que qualquer ser humano, podendo acumular até 400, 500 séculos de vida. Mas para isso precisavam usar poções para prolongar a sua juventude. Em muitos casos, quando o bruxo não desenvolvia esta habilidade, ele poderia morrer como qualquer outro ser humano.

Eu era apenas uma bruxa de 22 anos, então, se tudo desse certo, eu poderia viver bastante. Por outro lado, quem é que quer viver sem dinheiro, sem ter lugar para morar, sem poder montar uma família? Eu também tinha sonhos, eu também tinha vontade de ter uma família, de ser bem-sucedida, de ser alguém.

Miranda veio até mim, no fundo do salão, e entregou um envelope. Deixei a bandeja em cima da mesa e abri curiosa; era uma grande quantia em dinheiro. Muitas notas de 100 dólares se enfileiravam, deixando o grande envelope completamente inflado.

— Minha nossa, olha só, tem um bilhete.

Miranda falou e tratou de esticar o bilhete em minha direção. Abri, e estava escrito em sânscrito. Ainda bem que eu sabia ler este idioma.

Com uma letra muito bonita, estava escrito: “Chloe, fiz uma promessa e costumo cumpri-las. Por isso, estou mandando o que combinamos. Espero que seja suficiente. Morpheus.”

— Graças a Gaya, Chloe, estamos salvas!

Miranda comemorou, enquanto ela fazia uma dancinha da vitória. Meu corpo deu uma leve vibrada, como se eu fosse algum tipo de celular. Era a primeira vez que eu tinha esse tipo de sensação, e fiquei imaginando se ela tinha alguma coisa a ver com o rei dos sonhos.

Por favor, não apareça aqui. Por favor, não apareça aqui.

Meu cérebro começou a repetir como um mantra, implorando para que ele não acabasse com tudo outra vez, para que essa busca insensata por seu amigo exorcista não acabasse nos colocando frente a frente novamente, e causando ainda mais cicatrizes na minha mente e no meu corpo.

Graças a Gaya, ele não apareceu.

A noite no bar foi tranquila, e os clientes que se dignaram aparecer foram tratados com todo carinho. Aproveitei que finalmente o dinheiro surgiu e servi alguns drinks grátis para me desculpar pelo incômodo da noite anterior.

Se tudo desse certo, logo eles esqueceriam que meu bar foi frequentado pelo Deus dos pesadelos e me deixariam em paz. Não era difícil encontrar bruxos que se estranharam com Constantine ao longo do tempo, e eles nem faziam ideia de que Morfeus aparecera para procurar o amigo que eles tanto odiavam.

Constantine era do tipo que batia primeiro, perguntava depois. Por isso, muitos bons feiticeiros foram interrogados de forma ríspida por ele, e até que tudo fosse esclarecido, muitas rusgas foram criadas e inimizades sentenciadas.

De volta em casa, eu estava de barriga cheia e pronta para deitar às 5 horas da manhã. Havia trabalhado tanto na noite anterior, que tudo que queria era ter um sono tranquilo, sem sonhos, sem pesadelos, apenas descanso. Mas como eu estava errada na maior parte do tempo, isso não aconteceu.

Sonho da Chloe ON

Eu estava deitada no sofá da salinha de funcionários, o exato lugar onde Morfeus me curou, olhando para ele ajoelhado em minha frente. Seus olhos, tão profundos e enigmáticos, perfuravam a minha alma, e por algum motivo, eu não queria parar de olhar para eles.

— Você tem cheiro de chiclete — confessei, e ele sorriu. Depois, segurou as minhas mãos e aproximou o rosto do meu.

Eu ainda não tinha percebido que aquilo era um sonho.

Foi apenas quando o rei desapareceu da minha frente, me deixando sozinha na salinha, e o verdadeiro Morpheus surgiu que eu entendi. A figura que entrou pela porta, puxou uma cadeira e se sentou de frente para mim, não era uma extensão da minha imaginação, e sim o real perpétuo.

— Cheiro de chiclete? — questionou, mas não havia nenhum tipo de humor na sua expressão.

— Olha, eu não tenho controle sobre essas asneiras que eu sonho — tratei de esclarecer.

— Eu te devo desculpas. Não queria que as coisas tivessem saído da forma que terminaram. — Ele estava pedindo desculpas. Isso sim era uma novidade.

— A partir de agora, você vai ficar perturbando os meus sonhos, é isso?

— Não, Chloe, eu só senti que devia te ver de novo. — Ele parecia extremamente preocupado, mas eu não sabia se era comigo ou com seu amigo Constantine.

— Tem notícias sobre John? Sabe como vai fazer para encontrá-lo?

— Bom, o que eu sei até agora é que ele foi sequestrado por algo demoníaco, e que o que quer que tenha feito isso não quis matá-lo. — A criatura fez uma pausa dramática, respirando fundo, abrindo as pernas e se recostando na cadeira. — Ainda sinto que ele está vivo.

— Você sente? — Eu estava surpresa. Como assim ele sentia? Tipo uma intuição ou algum tipo de relação bizarra que eles tinham?

— É difícil de explicar, mas quando um perpétuo tem uma ligação emocional com um humano, ele sente de alguma forma.

— Entendi. — Fiz uma pausa. — Olha, eu não sei de onde você tirou todo aquele dinheiro, mas eu quero te agradecer, porque ele vai me ajudar muito. Eu sei que eu falei que não queria, mas eu precisava dele, então, muito obrigada.

Ele apenas balançou a cabeça, como quem diz “de nada”.

— Agora, eu estou marcada? Eles vão vir atrás de mim?

— Eu não sei. — confessou. — Espero que o fato de ter me afastado de você te deixe segura.

— Você não se afastou de mim, está aqui agora.

— Apenas no seu sonho, aqui em meu reino.

— Então, você é um rei?

— Bom, comando toda uma dimensão. Por isso, muitos me chamam assim.

— Deve ser muito bom ter poder, saber quem você é e o que você precisa fazer, sem que os outros tenham que te dizer, sem que você tenha que desbravar o mundo atrás disso. É um baita privilégio.

Ele fez menção em dizer alguma coisa, mas se calou. Por um segundo, a preocupação no olhar de Morfeus deu lugar a uma melancolia. Ele pareceu menos apavorante do que geralmente era; seus lábios se esticaram numa fina linha rígida, e ele contraiu o maxilar, tensionado-o.

Ficamos sem palavras, e ele me observou da forma que fez na primeira vez que disse o meu nome. Parecia intrigado com alguma coisa.

— Você está escondendo alguma coisa? — Ele disse finalmente, mas continuei calada.

— Não estou escondendo nada, senhor. — Menti descaradamente. Afinal de contas, se ele soubesse o que eu era capaz de fazer, as consequências do meu dom poderiam me levar a estradas ainda mais perigosas, principalmente com um perpétuo que não estava afim de seguir as regras.

Morpheus se levantou da cadeira em que estava e veio em minha direção rapidamente. Ocupou o lugar de sua antiga versão, aquela criada por minha mente, e sem me tocar, mas com o rosto próximo ao meu, ele avaliou tudo em meu rosto.

— Você sabe que isso é esquisito, né? — Questionei, me sentindo incomodada. Ele realmente tinha cheiro de chiclete, e talvez por estar numa realidade onírica, isso despertou as minhas papilas gustativas, fazendo com que um pouco de saliva se juntasse em minha boca.

— Eu não costumo me surpreender facilmente, Chloe, mas você é … — Antes que ele pudesse terminar, acordei com o despertador do celular.

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