Está pronto para a segunda parte deste conto de terror assustador? Nosso personagem terá que enfrentar o dia do fim do mundo e acaba encontrando uma velha conhecida nessa jornada. Mas será que ele é capaz de sobreviver?

 Segunda Parte _ O dia do fim do mundo

Acordei sonolento; olhei desnorteado para os lados enquanto tentava entender por que havia dormido na cozinha. Aos poucos as lembranças da noite anterior surgiram. Chorei, não sabia o que fazer.

Corri até o quarto dos meus pais em uma falsa esperança de encontrá-los. Depois de concluir que estava realmente sozinho em casa, saí para me deparar com uma rua vazia. Tudo era silêncio. Tive medo de ser o último ser vivo do planeta. Percorri várias ruas a esmo e não encontrei ninguém.

A solidão era devastadora, fui tomado por um enorme vazio no coração. Ainda com a ilusão de encontrar auxílio, corri até a escola. Foi inútil. Todas as salas estavam vazias.

Voltei para a rua. Uma mulher passou correndo ao meu lado.

– Me ajuda – eu implorei.

Vi o horror estampado em seu rosto quando ela virou-se e gritou:

– É o fim do mundo!

Sem dizer mais nada ela atirou-se dentro de um carro, acelerou furiosamente e bateu em um poste alguns metros à frente. Eu quis ajudá-la, mas ao aproximar-me do veículo não encontrei ninguém. A mulher desaparecera.

Eu me senti desprotegido, talvez a força que fazia as pessoas desaparecerem estivesse por perto. Afastei-me do carro. Acreditando agora que estava vivendo o fim do mundo, corri em direção ao único lugar em que poderia me sentir seguro: uma igreja.

No caminho encontrei outras pessoas, mas todas pareciam tão confusas que decidi não pedir ajuda. Virei à esquerda em uma avenida que parecia deserta, mas não estava. Assustei-me ao trombar em alguém que caiu com o impacto.

– Desculpe!

Uma menina loira e pequena chorava sentada no chão. Não havia se ferido ao bater-se de frente comigo, mas, assim como todas as pessoas que encontrei naquele estranho dia, estava desesperada. Eu a reconheci.

– Amanda! – era a minha paixão secreta.

Pela primeira vez ela interessou-se pela pessoa que a derrubara, olhou-me surpresa e seus olhos brilharam ao reconhecer-me. Ela levantou-se e me abraçou com toda a sua força, como se a sua vida dependesse disso.

O vazio no meu peito desapareceu, me esqueci de que o mundo poderia estar perto do fim.

– Que bom que eu encontrei você – ela falou. – O que está acontecendo com o mundo? A minha família inteira desapareceu!

– A minha também.

– O que iremos fazer?

– Vamos para a igreja!

– Por quê?

– Eu não sei direito.

Apesar de estar insegura em relação aos meus planos, Amanda seguiu-me.

Chegamos à igreja. Entramos através de uma grande porta escancarada. Encontramos um ambiente mergulhado na penumbra. No altar duas velas queimavam projetando sombras oscilantes nas paredes. No penúltimo banco, o padre estava sentado. Ele virou-se para nós, parecia muito sereno e eu me perguntei se ele saberia das coisas que estavam acontecendo do lado de fora.

– Olá. O que desejam?

– Precisamos de ajuda – eu implorei.

– Sentem-se ao meu lado, terei prazer em ajudá-los.

Amanda e eu nos sentamos.

– Padre, as pessoas estão desaparecendo – revelei.

– Eu sei – ele falou, calmamente.

– Pode nos explicar o que está acontecendo? – agora eu não tinha dúvidas que estava no lugar certo. Aquele homem carregava no olhar a serenidade de quem tinha todas as respostas.

Ele suspirou e começou a falar:

– A verdade é que estamos muito perto do fim, o mundo passará por uma purificação. As pessoas que desapareceram são aquelas de coração puro, que se arrependeram de todos os seus erros e por isso foram salvas por Deus.

– E o que acontecerá com os que ficaram? – Amanda perguntou, sua voz estava embargada pelo medo.

– Os que ficaram assistirão ao caos, mas ainda terão uma chance. Ao meio-dia cada pessoa verá uma folha caindo do céu, nela estarão descritos todos os seus erros. Você deverá lê-los em voz alta antes que a folha toque o chão.

– E se eu não conseguir? – Amanda perguntou.

– Assim que a folha repousar no solo você deverá verificar quantos erros não conseguiu ler, este número corresponderá ao número de horas em que você terá que sobreviver ao caos.  Se você for bem sucedida será salva quando o tempo se esgotar.

– O que quer dizer com caos? – perguntei, apavorado.

– Uma cratera que conduz diretamente ao inferno se abrirá. Dela sairão criaturas que tentarão arrastar todos para as trevas.

O medo me consumia, naquele momento não poderia estar mais arrependido de todos os meus erros. O padre pareceu ler os meus pensamentos.

– Infelizmente já é muito tarde para se arrepender. Boa sorte, meus filhos.

O padre levantou-se e dirigiu-se ao altar em passos lentos. Na metade do caminho ele parou e virou-se.

– Todas as pessoas que desapareceram receberam a visita de um anjo que lhes contou tudo o que iria acontecer! – ele parecia nos perguntar algo através de sua expressão.

– Eu não vi nenhum anjo! – respondi.

– E você, menina?

– Também não – Amanda respondeu.

– Que pena!

O padre continuou andando e desapareceu antes de chegar ao altar.

Por alguns minutos eu permaneci paralisado, pensando em tudo o que tinha escutado. Tentava adivinhar quantos erros estariam listados na folha que cairia do céu. Afinal, eu tinha visto tantas coisas estranhas nas últimas horas que nem pensei em duvidar a história do padre.

Entretanto, era muito estranho pensar que Deus seria capaz de decidir o futuro das criaturas naquela espécie de jogo mortal. Parecia algo sádico, muito diferente de tudo o que eu esperava de uma divindade.

– Não me deixe sozinha – Amanda interrompeu meus pensamentos segurando a minha mão. Ela chorava.

– Não se preocupe, tudo vai dar certo!

Ela trazia no pulso esquerdo um relógio, examinou-o e informou:

– Faltam dois minutos para o meio-dia!

De mãos dadas corremos para a rua. O cenário mudara drasticamente: o céu estava negro, como se impregnado por uma terrível mancha, o sol desaparecera, mas o dia permanecia ligeiramente claro. Um vento gelado soprava.

– Meio-dia – Amanda informou.

No céu negro eu avistei um ponto branco que se aproximava lentamente, movimentava-se pra lá e pra cá em uma dança suave. Dois minutos depois percebi que era uma folha de papel. Amanda olhava para o outro lado. Cada um parecia enxergar apenas a sua folha.

E o papel chegou perto o suficiente para que eu conseguisse distinguir as palavras escritas em tinta azul. É assustador fazer uma leitura da qual depende a sua vida. Gaguejei e não consegui completar a leitura. A folha tocou o chão, observei que não havia conseguido ler três itens em uma lista com dez. Olhei para Amanda.

– Terei que sobreviver por três horas. – revelei – E você?

– Quatro.

Enquanto nos olhávamos sem saber o que fazer, houve um violento tremor. Caímos e vimos surgir ao nosso lado uma cratera, como se a terra estivesse se dividindo ao meio. Um vapor mal cheiroso começou a exalar ao mesmo tempo em que a cratera atingia três metros de largura e o tremor cessava.

Lembro-me de ter escutado um pavoroso silvo que veio das profundezas da terra. Levantei-me e segurei a mão de Amanda. Nós corremos sem olhar para trás.

Fomos obrigados a parar quando uma mulher desesperada agarrou-me pela camisa.

– Por favor, ajude- me! – ela gritou.

– Senhora, estamos com pressa – eu falei tentando me libertar.

Ouvimos um silvo novamente e no fim da rua surgiu uma pavorosa criatura deslizante. Ela usava uma capa negra que lhe cobria o corpo quase totalmente. Apenas as mangas eram curtas, deixando nuas as mãos vermelhas e descarnadas. Os braços estavam estendidos, como se a criatura estivesse pronta para agarrar qualquer coisa que encontrasse.

– Senhora, temos que correr – eu falei com severidade, na esperança de que ela compreendesse o perigo que nos cercava.

Mas a mulher era incapaz de correr, e também não queria me deixar escapar. Diante do desespero e do medo tentei me soltar de todas as formas. Minha camisa rasgou-se, e a mulher ficou com o meu colarinho na mão. A criatura aproximou-se dela e a envolveu em um abraço cruel, depois a levou para longe. Para a cratera, eu sabia.

Continuamos a correr sem rumo, e a todo instante olhávamos para o relógio desejando que o tempo passasse bem depressa.

Após meia-hora de fuga desesperada, decidimos parar e descansar um pouco. Tínhamos a doce sensação de que estávamos a uma grande distância de qualquer coisa que estivesse nos perseguindo. Sentamo-nos em uma calçada qualquer.

Fiquei em silêncio e ofegante por alguns minutos. Depois de recuperar o fôlego olhei para Amanda. Ela parecia muito mais cansada do que eu, tremia e resfolegava. Poderia ser a minha última chance de dizer o que estava sentindo.

– Amanda, olhe pra mim!

Ela olhou-me, eu segurei-lhe a mão e falei:

– Eu te amo. Desculpe por sentir tanto medo e não ter contado antes.

Talvez tenha sido apenas uma impressão, mas acho que vi um brilho surgindo em seu olhar, que estava triste até aquele momento. Ela parou de tremer, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, foi bruscamente agarrada por uma mão vermelha e descarnada que emergiu de um bueiro.

– Socorro! – ela gritou ao receber um violento puxão.

Eu segurei a mão pavorosa, era fria como uma pedra de gelo. Usei toda a minha força em uma tentativa de puxar a criatura para cima. O braço coberto pela capa negra emergiu e o ser das trevas bateu a cabeça contra a grade que protegia uma parte do bueiro. Amanda libertou-se.

Fiquei surpreso com a fragilidade da criatura e, sem perder tempo, empurrei seu braço forçando-o contra a calçada. Ouviu-se o barulho de ossos se quebrando, a criatura soltou um silvo ensurdecedor e recolheu o membro ferido para dentro do bueiro.

Amanda chorava ao meu lado. Os dedos descarnados marcaram-lhe o tornozelo como uma terrível queimadura.

– Você está bem? – perguntei muito preocupado.

– Que coisa horrível! – ela falou trêmula.

– Temos que continuar correndo!

Eu a ajudei a se levantar. Um vento gelado soprou e percebemos que o nosso caminho estava bloqueado. Criaturas encapuzadas aproximavam-se de ambos os lados. Estávamos cercados.

– Para o bueiro! – eu decidi convicto.

– Eu não vou entrar nesse buraco, tem um deles lá dentro!

– E aqui tem centenas deles! Vamos logo!

– Eu não vou conseguir! – ela começou a chorar.

– Não desista, meu amor!

Subitamente ela encheu-se de ânimo (será que foi por causa de algo que eu disse?), e enfiou-se na escuridão do bueiro. Eu era maior e mais forte, tive uma imensa dificuldade para passar em um espaço tão pequeno. Já havia esfolado os joelhos e os braços quando finalmente aterrissei no imenso encanamento úmido, usado para escoar a água da chuva.

– Onde está aquela criatura pavorosa? – Amanda perguntou-me olhando para todos os lados.

Era muito escuro ali, só conseguíamos nos ver por causa da pouca luz que se infiltrava por onde entramos.

– Vamos torcer para que ele siga um caminho diferente do nosso.

– O que pretende fazer? – ela perguntou.

– Vamos andar, essa tubulação deve terminar em um rio!

Depois de avançar alguns metros mergulhamos na escuridão total, nossos olhos eram inúteis agora.

Andávamos devagar, ali nos sentíamos seguros e só precisávamos esperar o tempo passar.

– Acha que vamos conseguir? – Amanda perguntou.

– É claro que vamos, falta pouco!

Na verdade, era impossível saber quanto tempo faltava. A escuridão nos impedia de consultar o relógio.

– Posso segurar a sua mão? – Amanda perguntou.

– O quê? – falei um pouco surpreso.

– Está tão escuro aqui! Estou com muito medo! – a voz dela estava sufocada pelas lágrimas que tentava reter.

Estiquei meu braço na escuridão. Nossos dedos se entrelaçaram e, mesmo vivendo o fim do mundo, eu não pude impedir que um grande sorriso se formasse em meu rosto.

Uma luz à nossa frente indicou que a nossa jornada subterrânea havia chegado ao fim. A tubulação terminava na metade de um barranco. Abaixo estava o rio.

– Vamos pular e nadar até a margem.

Jogamo-nos na água. Não havia correnteza, mesmo assim o percurso foi desgastante e estávamos exaustos ao sairmos na margem. Deitamo-nos na terra úmida e descansamos.

Olhei para o céu negro e ele reacendeu o meu medo. Levantei-me, havia uma estrada por perto e do outro lado destacavam-se muitos galpões onde funcionavam fábricas, mas todos pareciam estar vazios.

– Temos que nos esconder!

Amanda levantou-se, consultou o relógio, mas ele havia parado de funcionar quando pulamos no rio.

Entramos em um dos galpões. Centenas de caixas estavam empilhadas no formato de grandes cubos intermitentes. Uma luz pálida e mortiça iluminava tudo precariamente. Pelo centro do galpão passava um corredor, e em seu final havia uma mesa com muitos objetos espalhados. Eu examinei tudo rapidamente e acabei encontrando aquilo que mais queria: um relógio. Tomei-o entre as mãos desesperadamente.

– Faltam cinquenta minutos para mim – falei contente, acreditando fielmente que iria resistir até o fim.

– Faltam uma hora e cinquenta minutos para mim! – Amanda falou bem menos animada.

Em silêncio nos sentamos no fundo do galpão, atrás da última fileira de caixas. Percebi que Amanda estava chorando novamente.

– O que foi? – perguntei.

– É que você vai desaparecer igual aos outros! – ela falou entre soluços. – Eu vou ficar sozinha!

– Só terá que aguentar mais um pouco, aquelas criaturas nunca a encontrarão.

Eu a envolvi em meus braços e suas lágrimas molharam o meu peito.

Devo ter adormecido sem perceber. Tinha a impressão de que se passaram apenas cinco minutos, mas Amanda avisou-me:

– Faltam dez minutos para você – ela abraçou-me com força.

O galpão estava completamente fechado, mas isso não impediu a passagem de um vento fraco que trouxe consigo um frio cortante.

– Eles estão chegando – Amanda avisou levantando-se.

– Temos que ir embora! – exclamei assustado.

Antes que eu pudesse me mover, ouvi um ruído no portão. Amanda abaixou-se e veio procurar segurança em um abraço.

– Um deles entrou!

Levantei-me e constatei que era verdade. Tão silencioso, tão frio, o ser deslizou pelo galpão, atingiu o corredor entre as caixas e avançou na direção em que estávamos escondidos. Não havia como escapar.

Olhei para Amanda, ela estava encolhida junto às caixas, suas mãos afundavam-se em seus cabelos escuros e seu rosto estava escondido entre os joelhos. Ela tremia esperando o fim, sem esperanças.

Diante do desespero da menina que eu amava, decidi o que fazer.

– Eu vou distraí-lo para que você possa fugir! Aqui não é mais seguro!

– Eu não posso deixar você fazer essa loucura! – ela olhou-me, seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar.

– Não é uma loucura – expliquei. – Eu tenho que fugir apenas alguns minutos, será fácil. Assim que você tiver certeza que não há ninguém por perto, fuja e não pare de correr até o seu tempo acabar.

Observei a aproximação do inimigo, iria permitir que ele me visse. De repente Amanda agarrou-me pelo braço, puxou-me para baixo e beijou-me.

– Eu te amo! – ela se declarou.

Aquele beijo funcionou como um escudo contra o medo. Muito feliz, eu corri pelo corredor e passei pela criatura encapuzada. As mãos vermelhas e descarnadas não puderam me alcançar.

Cheguei ao portão, olhei por sobre o ombro para ter a certeza de que a criatura me perseguia e Amanda estava a salvo, depois avancei por uma rua vazia.

Faltava tão pouco, eu iria desaparecer, talvez fosse levado a um paraíso onde poderia reencontrar meus pais e esperar Amanda chegar. Mas eu não consegui. Os inimigos se multiplicaram, agora já eram três, e depois oito.

Senti o toque de mãos geladas como a neve. Dois deles me seguraram. Por um minuto ainda tentei me libertar, mas o frio sugara as minhas forças, já não era mais capaz de me mover. O meu corpo parecia congelar. Mesmo assim, os meus olhos permaneceram abertos e eu vi cada rua por onde fui arrastado até chegar à cratera.

Subitamente percebi que o meu corpo descongelara. Diante da cratera eu senti um calor imenso, de chamas que ardiam nas profundezas da terra. Em um último esforço tentei afastar-me daquela terrível boca fumegante que estava pronta para engolir-me. Não consegui. Fui atirado no abismo.

Não gritei, não chorei e em nada pensei. Abaixo de mim, eu só conseguia enxergar uma terrível escuridão e mãos tenebrosas que tentavam agarrar-me, algumas estavam muito distantes, outras bem perto.

E eu fui caindo, caindo e caindo. Mas depois de um minuto notei, inesperadamente, que estava subindo. Enchi-me de esperanças, talvez o meu tempo tivesse acabado e eu estava finalmente sendo salvo. Mas eu não deveria desaparecer? Talvez ser transportado instantaneamente para um outro lugar?

Eu não desapareci, apenas continuei subindo. Saí da terrível cratera. Em ambos os lados os enviados das trevas espreitavam, incapazes de alcançar-me.

Continuei a ser conduzido por uma força mágica, sempre mais alto. Agora eu já podia enxergar todo o meu bairro. Pousei meu olhar na fábrica onde estive escondido. O galpão estava em chamas. “Será que Amanda conseguira escapar?” Procurei-a nos arredores e percebi que ela corria na margem do rio.

– Você vai conseguir! – eu incentivei, mas ela não podia me ouvir.

Amanda continuou correndo e chegou a uma rua com prédios altos. Os inimigos a esperavam na próxima esquina, ela os viu a tempo e recuou. Fugiu por uma rua paralela. Ela estava muito cansada, caiu em uma calçada e ficou imóvel.

– Não desista Amanda, eles estão chegando! – eu gritei.

Ela ergueu-se com dificuldade, olhou ao redor e ficou vigiando, esperando. Os inimigos encapuzados surgiram, vindos de uma rua qualquer. Antes de decidir o que fazer, Amanda desapareceu. Ela estava a salvo.

Continuei subindo. Vi outras pessoas. Algumas eram jogadas na cratera, outras desapareciam. E depois os próprios seres encapuzados se jogaram no abismo. A Terra ficou vazia.

Cada vez mais alto eu vi que novas crateras surgiram como enormes feridas na terra, e dessas feridas começou a emergir lava. Toda a superfície do planeta foi tomada por erupções gigantescas. Os oceanos borbulharam e depois toda a água transformou-se em lava.

Por um segundo eu vi a Terra brilhar como uma enorme bola de fogo, depois tudo explodiu, um brilho vermelho espalhou-se em todas as direções até desaparecer na imensidão do universo. Tudo o que restou foi um silêncio escuro.

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Dia do fim do mundo – Reprodução

Inesperadamente, uma espessa neblina cercou-me. Senti que pisava em algo sólido. Ouvi passos.

– Quem está aí? – perguntei. Eu me sentia calmo e sonolento.

O padre que me contara tudo o que iria acontecer, aproximou-se.

– Tudo bem, garoto?

– Sim, mas onde estamos?

– Eu não sei – ele falou olhando ao redor. – Talvez dentro de uma nuvem.

– Eu fui salvo? Consegui resistir até o fim do meu tempo?

– Sim, você foi salvo, e não, você não conseguiu resistir pelo tempo necessário!

– Então por que me salvei?

– Porque tem um bom coração! – ele falou sorridente segurando meus ombros. – Você decidiu arriscar a própria vida para tentar salvar a menina, por isso foi salvo.

– Mas padre, o que será de nós agora que o mundo acabou?

– Um novo mundo nos espera, um mundo melhor, todo o mal se extinguiu. Adeus!

O padre afastou-se ao mesmo tempo em que eu notava um brilho intenso vindo do alto. A neblina foi desaparecendo e eu percebi que aquele brilho era na verdade a luz do sol. O mundo continuava ali, aparentemente como sempre foi.

Eu estava diante da minha casa. Olhei em volta e avistei os mesmos prédios e as mesmas árvores. Não sabia dizer o que tinha acontecido. Eu havia pensado que nunca mais veria aquela rua.

A porta abriu-se. Meus pais saíram e me abraçaram alegremente.

– Entre filho, precisa ir para a escola!

“Escola”, eu pensei. “Será que nada havia mudado e eu poderia continuar a minha vida de onde parei?”

Eu entrei em casa. Queria tomar um banho, mas percebi que já estava limpo, apesar de ter corrido feito um louco nas últimas horas.

A campainha tocou. Abri a porta enquanto meus pais preparavam o almoço com muitas horas de atraso. Era Amanda.

– Oi! – ela disse. – Obrigada, sem a sua ajuda eu jamais teria conseguido escapar!

– Eu já estava começando a pensar que tudo tinha sido um sonho.

– Não foi.

– Então nós…nos beijamos?

– Sim! – ela respondeu ruborizando. – Depois de tudo é disso que você se lembra?

– E você disse que me ama?

– Sim! – ela abaixou a cabeça.

Suavemente eu acariciei seu rosto. Ela olhou-me.

– Amanda, você quer namorar comigo?

E assim se iniciou o nosso namoro.

Nos meses seguintes eu procurei diferenças entre o mundo que eu vi explodir e o novo, que se parecia tanto com o antigo. Acabei descobrindo que muitas pessoas nunca voltaram para suas casas.

Mas será que este novo mundo realmente seria um lugar melhor? Isso eu ainda teria que descobrir.

Chegou aqui um pouco desavisado? Então, confira a primeira parte dessa história.

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